segui a trilha de tuas roupas
deixadas pelo chão
enquanto as dissonantes notas
azuis ecoam perdidas pelos
cantos escondidos da minha casa

a voz da cantora negra americana
lembra que nossa vida é chama
e que ardemos brasa quando amamos
páginas de nossa história
carbonizadas pela fúria
do insano desejo de viver

a canção nina, mas não acalma
um peito inquieto de tantos carnavais

brisa leve e tempo fugidio
cheiro de cabelo fresco pelo banho
risco vermelho de unha nas costas nua
sangue, suor e solidão entrelaçados

que coincidência é o amor…
a nossa música é a que mais tocou

OA 00:34

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Do galho da goiabeira
colheu um beijo feito fruta
Da moça bonita de laço amarelo
Que o fitava de lá do quintal

O trem passou na hora em que
cerraram os olhos pidões
“Fez pedido, não fez?”
cochichou num olhar tímido
como quem revela um segredo anil

Pega no verde pra dar sorte
Toca no seio pra dar calafrio

Passarinhada faz festa daqueles dois
Tão puros e tão inocentes em sua fruição
Pé de amor precisa de água não
Só carece de cuidar bem.

OA 23h23 30.11.15

De que serve um escafandro
num mergulho infinito?
Volteia em um norte sem rumo
mas de fôlego raro

Passos tortos em direção à luz
Tão sutil quanto teu
olhar de soslaio

Jardins de perdição
Restos escombrosos
de túmulos ciganos
Noite sem lua
Imersa numa
escuridão sem prumo

Boca seca de temor
escorrendo a
seiva sinistra que
circula em tuas
entranhas

Olhos vermelhos
lábios de fumo
Defunto querer
em um vago lembrar
de tempos idos

Teu córtex límbico
selvagem que devasta
os meus poros impuros

Garra ameaça de
tortura sevícia
Riscos no corpo nu
sem abrigo

Vela teu sono de
noites intranquilas
Geme dolorido e fugaz
Treme de medo
e delírio

0A 10:34 01.12.15

“O verbo se fez carne
e habitou entre nós”,
revela o livro sagrado

O velho do charuto
prega que o desejo
é uma força que
nunca se consome

Eu que nunca fui muito
de religião e nem de análise
só o que sei da vida
é o que
meu olho vê,
o braço toca
e a boca degusta

O que os meus sentidos
exclamam é que no mundo
tudo é carne e que
meu desejo encarnado
acena com sua boca vermelha,
tez morena, negras vestes
e me tira para dançar

Bailamos um passo velado
e, num gesto dele,
meu mundo rodopia.

O coração do velho
austríaco não bate
muito bem, pois o
meu desejo tem
endereço certo,
move-se,
respira,
pulsa e
vibra como
ninguém.

Meu desejo se faz carne
e habita entre mim.
Meu desejo se faz gozo
e eu me transubstanciei.
Meu desejo se faz verbo
e se encarna poesia.

OA 20h14 201215

a voz rouca e mansa da estrada
sopra segredos, histórias,
lendas e cantigas
nos ouvidos de quem
cuja sina nessa vida
é se perder
seguindo o rumo da venta
trilhando o prumo do vento
palmilhando rotas de fuga
traçando pontos de encontro
duas gotas de suor no pingo do meio-dia
feixes de sol iluminando pássaros vadios
miragens vistas ao longo do horizonte
de vultos viciados em alta velocidade
bandoleiros, bandidos e lunáticos
amantes, bêbados e alucinados
não há ninguém lhes esperando
nem pouso certo ou abrigo
se bastam e isso é tudo
nada sobra no mundo que construíram
para si
sua religião é seguir
sempre em frente
seu templo é
o leito morno do asfalto
comungam no banco
de trás do carro
entrecobertos pelo fio
tecido pela luz da lua
* escrito ao som de Lovely Head, Goldfrapp
OA 04.11.16 01H18

prenda das águas
cria do desmedido
da natureza que
brota do córrego
num curso torto
do meio do mato

teu corpo emerge
luminoso e negro
num sorriso
meio-bobo
meio-lascivo
braços erguidos
bulindo com o
leito do rio

minha inquieta
Iara morena
meia-sereia
meia-curumim

dádiva minha
ser teu guará
mirando daqui
da minha pedra
tua beleza carmim
sem fim

sem fim
sem fim…

OA 02.04.17 23H28

i.
amo te chamar de amor
amo te amar
amo fazer planos e desfazê-los
no nosso pra sempre
que é sempre bem aí
um pulo, um tempo tão curto
breve instante
que mal dá conta
do tanto que te amo
do exíguo tempo infinito
que preciso pra
demonstrar
quanto que te quero
tempo eterno e terno
calendário apressado
e desfolhado incapaz
de gerar, dia, mês, ano
e decênios que sejam
capazes de abrandar
a vontade de consumir
nosso desejo por inteiro

ii.
amo teu olhar de
menina fatal
lábios cerrados
dum vermelho tão acirrado
que beira a cor do malte
carne macia e úmida do desejo
doce suavidade de ser você
oásis de encanto
nessa vida que é
tão árdua e dolorida

batom impresso na boca
anseio por meus lábios
roçando os teus
arruinando o teu make
não me importo
não se pede piedade
a um leão faminto
e nem que um cavalo
tenha parcimônia
no seu ato de cruzar

porque por mais bela
que seja tua pintura
labial estampada na
tua face despida

é no meu corpo,
no meu rosto,
no meu gozo
que o batom
da tua boca
deve estar

OA 30.11.16 00h24

Lido na parede do banheiro do terminal do Siqueira, na tarde de ontem:

“porque a poesia é um modo de vida, quer você queira ou não,
torta, parnasiana, suja ou metalinguística
seguindo fluxos caudalosos
de fatos, atitudes e afetos

palavras entrelaçadas a movimentos corpóreos,
nervos entranhados na tintura das coisas,
atados a bytes arreganhados de monitores vazios
radiografias embotadas de pensamentos, temores e paixões

córtex, limbo, éter que tudo perpassa
sombras, vultos, modernas fantasmagorias
pele, dedos, músculos automatizados

mais que alguém que sabe escrever,
o poeta é, antes de tudo,
um domador de suas próprias bestas internas”

OA, 23.10.16 10h00

tome mais uma gole
dessa cachaça
que nunca lhe caiu bem
limpe o suor da testa
na manga da minha camisa
e não deixe o cansaço
se assentar entre nós

estamos longe de casa ainda
não há porque se agoniar
(creio que, na verdade,
nossa morada sequer foi erguida
mas só vou lhe contar
sobre isso na próxima parada,
depois que dobrarmos a esquina)

ontem vi nossas iniciais
no espelho arranhado do abrigo
refletindo uma imagem
borrada de johhny e june
(mas quem toca violão é você
eu sou só o que passa o chapéu
faminto por trocados
rindo de forma amistosa
entre os passantes)

tome mais um shot de
tequila pra lhe esquentar
e não esqueça de
erguer o copinho
e aceitar a bênção
do padre da TV
(mal não há de lhe fazer)
vire tudo de um só gole
e não se incomode com o
meu tom imperativo
(é só uma forma de
lhe querer fazer um bem)

tome seu dedo de uísque
inspire um trago de fumaça
e belisque uma coisinha
desse caldo de feijão
respire um pouco
mais devagar e sente-se
direito na cadeira
(o cigarro e a escoliose
ainda lhe matam,
mas não hoje)

apanhe sua carteira
não a deixe por aí
(soube que os salteadores
estão soltos
e nem mesmo os vagabundos
como nós estão a salvo
de serem surrupiados)

quando voltarmos,
responda sua mãe e não
deixe de abraçar o seu pai
antes de passar o bilhete
por baixo da porta

vista seu casaco e
seque só mais esse copo
sei que o frio lhe incomoda,
mas o que dói nos ossos
mesmo é a solidão
(o álcool ainda nos mata,
mas não esta noite)

OA 22.10.16 03h09

te cobri de poesias
mais vistosas que
as flores do jardim
do vizinho
palavras inscritas
em tecidos tão elegantes
quanto as joias da vitrine
daquela loja da esquina

mas você não acertou
o passo
você errou o tom,
darling
passou do ponto e
torrou minha paciência

você quis sempre o
mesmo sujeito
apenas um pouco
melhorado
uma versão 2.0
genérica do homem
de bem

mas não é bem assim
não me leve a mal

me deixe no posto
mais próximo
me largue no poste
inclinado
não aposte mais em mim

deposite o meu dinheiro
no banco da praça
um dia eu passo lá
com juros, com juras
(nunca foi muito
digno de crédito mesmo)

OA 22.10.16 02h25