prenda das águas
cria do desmedido
da natureza que
brota do córrego
num curso torto
do meio do mato

teu corpo emerge
luminoso e negro
num sorriso
meio-bobo
meio-lascivo
braços erguidos
bulindo com o
leito do rio

minha inquieta
Iara morena
meia-sereia
meia-curumim

dádiva minha
ser teu guará
mirando daqui
da minha pedra
tua beleza carmim
sem fim

sem fim
sem fim…

OA 02.04.17 23H28

i.
amo te chamar de amor
amo te amar
amo fazer planos e desfazê-los
no nosso pra sempre
que é sempre bem aí
um pulo, um tempo tão curto
breve instante
que mal dá conta
do tanto que te amo
do exíguo tempo infinito
que preciso pra
demonstrar
quanto que te quero
tempo eterno e terno
calendário apressado
e desfolhado incapaz
de gerar, dia, mês, ano
e decênios que sejam
capazes de abrandar
a vontade de consumir
nosso desejo por inteiro

ii.
amo teu olhar de
menina fatal
lábios cerrados
dum vermelho tão acirrado
que beira a cor do malte
carne macia e úmida do desejo
doce suavidade de ser você
oásis de encanto
nessa vida que é
tão árdua e dolorida

batom impresso na boca
anseio por meus lábios
roçando os teus
arruinando o teu make
não me importo
não se pede piedade
a um leão faminto
e nem que um cavalo
tenha parcimônia
no seu ato de cruzar

porque por mais bela
que seja tua pintura
labial estampada na
tua face despida

é no meu corpo,
no meu rosto,
no meu gozo
que o batom
da tua boca
deve estar

OA 30.11.16 00h24

Lido na parede do banheiro do terminal do Siqueira, na tarde de ontem:

“porque a poesia é um modo de vida, quer você queira ou não,
torta, parnasiana, suja ou metalinguística
seguindo fluxos caudalosos
de fatos, atitudes e afetos

palavras entrelaçadas a movimentos corpóreos,
nervos entranhados na tintura das coisas,
atados a bytes arreganhados de monitores vazios
radiografias embotadas de pensamentos, temores e paixões

córtex, limbo, éter que tudo perpassa
sombras, vultos, modernas fantasmagorias
pele, dedos, músculos automatizados

mais que alguém que sabe escrever,
o poeta é, antes de tudo,
um domador de suas próprias bestas internas”

OA, 23.10.16 10h00

tome mais uma gole
dessa cachaça
que nunca lhe caiu bem
limpe o suor da testa
na manga da minha camisa
e não deixe o cansaço
se assentar entre nós

estamos longe de casa ainda
não há porque se agoniar
(creio que, na verdade,
nossa morada sequer foi erguida
mas só vou lhe contar
sobre isso na próxima parada,
depois que dobrarmos a esquina)

ontem vi nossas iniciais
no espelho arranhado do abrigo
refletindo uma imagem
borrada de johhny e june
(mas quem toca violão é você
eu sou só o que passa o chapéu
faminto por trocados
rindo de forma amistosa
entre os passantes)

tome mais um shot de
tequila pra lhe esquentar
e não esqueça de
erguer o copinho
e aceitar a bênção
do padre da TV
(mal não há de lhe fazer)
vire tudo de um só gole
e não se incomode com o
meu tom imperativo
(é só uma forma de
lhe querer fazer um bem)

tome seu dedo de uísque
inspire um trago de fumaça
e belisque uma coisinha
desse caldo de feijão
respire um pouco
mais devagar e sente-se
direito na cadeira
(o cigarro e a escoliose
ainda lhe matam,
mas não hoje)

apanhe sua carteira
não a deixe por aí
(soube que os salteadores
estão soltos
e nem mesmo os vagabundos
como nós estão a salvo
de serem surrupiados)

quando voltarmos,
responda sua mãe e não
deixe de abraçar o seu pai
antes de passar o bilhete
por baixo da porta

vista seu casaco e
seque só mais esse copo
sei que o frio lhe incomoda,
mas o que dói nos ossos
mesmo é a solidão
(o álcool ainda nos mata,
mas não esta noite)

OA 22.10.16 03h09

te cobri de poesias
mais vistosas que
as flores do jardim
do vizinho
palavras inscritas
em tecidos tão elegantes
quanto as joias da vitrine
daquela loja da esquina

mas você não acertou
o passo
você errou o tom,
darling
passou do ponto e
torrou minha paciência

você quis sempre o
mesmo sujeito
apenas um pouco
melhorado
uma versão 2.0
genérica do homem
de bem

mas não é bem assim
não me leve a mal

me deixe no posto
mais próximo
me largue no poste
inclinado
não aposte mais em mim

deposite o meu dinheiro
no banco da praça
um dia eu passo lá
com juros, com juras
(nunca foi muito
digno de crédito mesmo)

OA 22.10.16 02h25

desprovido do abrigo da noite
nas minhas veias uma agulha
sonora de Morphine se injeta

“You’re the night,
a little girl lost in the woods

You’re a folk tale,
the unexplainable”

o som atarrachado do sax
reverbera nas paredes do
meu ouvido
derramando gotas de ácido
sulfúrico no meu café
sob a forma de notas peroladas
de angústia

o sol traíra do meio dia
em nada me traz conforto
animal cruento da noite
vago apenas me refugiando
na manhã lenta e estúpida
de poeta amador

e quem vê minha face
e quem vê meu pulso vazio
e quem ouve minha voz doce
de veludo azul

mal sabe o desalento
que se esconde
no coração do homem

fundo infindo
fenda escancarada
bocarra sem dentes
mandíbula arqueada
coluna escoliótica

abraços nus beirando
a borda da cama branca

sobrecorpos
sobrecargas

o perfume, as lembranças
o dorso da saudade
sua face oculta

bocas, mil lábios suculentos
febre, gozo e a dissolução do eu

um blues, um baixo,
aceno do deus do sonho
me dizendo amém

“you’re my only home
and I can’t make it on my own”

OA 20.10.16

a voz rouca e mansa da estrada
sopra segredos, histórias,
lendas e cantigas
nos ouvidos de quem
cuja sina nessa vida
é se perder

seguindo o rumo da venta
trilhando o prumo do vento
palmilhando rotas de fuga
traçando pontos de encontro

duas gotas de suor no pingo do meio-dia
feixes de sol iluminando pássaros vadios
miragens vistas ao longo do horizonte
de vultos viciados em alta velocidade

bandoleiros, bandidos e lunáticos
amantes, bêbados e alucinados
não há ninguém lhes esperando
nem pouso certo ou abrigo
se bastam e isso é tudo
nada sobra no mundo
que construíram para si

sua religião é seguir
sempre em frente
seu templo é
o leito morno do asfalto
comungam no banco
de trás do carro
entrecobertos pelo fio
tecido pela luz da lua

* finalizado ao som de “Lovely Head”, Goldfrapp
OA 04.11.16 01h23

véu branco rendado
da noiva-cadáver
da cor de açúcar
refinado

alva feição do mal
do temor que se instala
e que paira pendente
sobre pilhas de corpos
feridos e quebrados
sob o estridente som do
ranger de dentes polidos

película artificial
que oculta
nossa tez mestiça
nossa voz diversa
tudo que não reflete
o mundo desenvolvido

não nos serve
beleza radiante
da boa moça
fachada juvenil
da opressão

nada que não
possa ser devorado
nos interessa

nós
os selvagens
nós
os canibais

Odracir Aruom 09:38 11.05.16

***

A inspiração de “Temor branco”:
“A ocasião pedia um traje mais imponente, mas o novo rosto das causas sociais brasileiras, função intrínseca ao cargo de primeira-dama, preferiu o jogo político da moda. O corte relaxado, minimalista, aliado à “cor da paz”, produziu mensagem de limpeza e simplicidade cujo papel pode ser lido como contraste ao clima de ebulição dos protestos anti-governo” (Folha de S.Paulo).

 

desço o olhar
aponto a lente
sigo teus passos
cambaleantes
na areia
lanço um olhar
desejoso e
faço cliques
registro tua
corrida desabalada
em minha direção
égua alada da vontade
sereia, ninfa, pérola
do mar sereno de
redondo feitio

teu sorriso fascina
e libera faíscas
úmidas e azuis
palmilha em
linha reta
trilhas sombrias
de algas verdes
(brotando
uvas túrgidas
ao longo da costa)

tua crina preta
esvoaça e dança
conjurando feitiços
veste/despe
uma blusa de
renda branca
short curto anil
adornos do torso
que me entorpece
contornos de tesão
no desenho do corpo
com o vestido

vem no teu galope solto
e leve, menina moleca
paro o instante com
a ponta de minhas mãos
imobilizo tua figura
para saciar minha sede
de ti à distância
imagem-reflexo do
furor da nossa paixão

amor furtivo
de uma tarde bandida
beira mar
beira do abismo
do desejo
à beira de me
entregar todo
por completo

toma minha mãos
como tua oferenda,
deusa da água

toma meu jugo
como tua prenda,
deusa do ar

OA 040916 02:23

É um sentimento forte,
mas tão forte,
mas tão forte mesmo
daqueles que
balança a gente
feito ventania

abestamento que dá
na cabeça
friagem que dá
no pé da barriga

quando se tá junto
é uma risadagem,
uma frescuragem gostosa
chamego de ruma,
prosa sem fim,
horror de carinho,
cheiro amuado,
amor sem pecado,
destino traçado,
peito batendo feito
banda de lata

se o bem querer
tá distante, a vida é
uma fuleragem só
o coração quase se
lasca de tanto a
saudade arrochar

mas quando o amado
aponta ao longe
vindo de trem
vindo de bonde
o contentamento é
tão grande
que o corpo todo
treme só de avistar

moça bonita de braço
enlaçado, repousa
cabeça no peito
do moço porque ali
é seu lugar

e a cama vira ninho
do casal de passarinho
rouxinol e socozinho
até o dia clarear

OA 2h23 28.08.16