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Indústria Cultural e o Pânico

O programa Pânico na TV, em meio a todos os seus excessos, tem um importante papel no atual marasmo em que vivemos: o de apresentar, nas entrelinhas, uma proposta de anarquia para massas, em que se escancara o lado dionisíaco da vida. Autoridades, subastros e subcelebridades são expostos ao ridículo montado pela indústria de entretenimento. Manifestações coletivas são promovidas para quem assiste, criando uma relação que supera a passividade. Quando o programa mostra um baixinho jogando bombas em propriedades alheias, o chamado à subversão torna-se evidente. A receptividade não poderia ser maior. Qualquer besteira dita pelos seus integrantes vira bordão nacional. O caso do “Ronaldo!” é apenas o mais recente.

Meritocracia na TV

Bastante emocionante a final do Soletrando no último sábado. Além do caráter educativo (aprendi quatro novas palavras) e do apelo aos jovens para que estudem, o programa tem o mérito de definir seu vencedor pelo critério do conhecimento pessoal e não o da popularidade, como todos os outros que existem por aí. Essa necessidade de ser famoso pela via mais fácil já deu no saco. Até o Jogo Duro amoleceu. Na edição passada, o público escolheu o ganhador. Isso quer dizer que não adianta mais o cara se esfalfar atrás daquelas notas mais que os outros, comer o pão que o diabo amassou, e superar o seu adversário em quantidade de dinheiro. Basta, apenas, que ele seja visto como o queridinho ou o que mais precisa da grana. Se for pra ser assim, que o público escolha logo de cara quem vai ganhar o dinheiro. Evita que o pessoal meta a mão em sangue, tripa e bicho morto de graça. Uma outra coisa: que graninha mixuruca, hein? R$ 16 mil pra passar todo aquele sufoco? Vamos abrir a mão, Rede Globo!

Mudança de hábito

O acirramento pelo Ibope está fazendo o público dormir cada vez mais tarde. Quer saber um (quase) segredo? Não tá valendo muito a pena, não.

Vendo TV no feriadão, algumas coisas despertaram meu interesse. Compartilho agora com os leitores do blog minhas impressões:

Barraco amoroso

O que leva uma pessoa a participar de uma prova envolvendo o namorado e a ex dele? R$ 5 mil são suficientes para se expor ao ridículo dessa maneira? Esse é o mote de um quadro chamado não sei o quê fura-olho, do programa Melhor do Brasil, da Record, que passa aos sábados. É deprimente ver que uma relação amorosa possa acabar ou sofra abalos via TV.
Culpa dos produtores? Não. Culpa de quem se dispõe a ir. Se a namorada,
mulher, seja lá o que for tiver de ir a um programa para saber se o namorado,
marido, seja lá o que for gosta dela, há algo de muito errado. A não ser que
haja uma combinação entre o trio e os R$ 5 mil sejam rachados no fim.
O cúmulo é a prova final, na qual as adversárias têm de fazer o coração do
cara pulsar mais intensamente ao apresentar “provas” de amor como aquelas
cartinhas escritas no caderno do Ursinho Puff ou lingeries sexies.
Sinceramente, eu não iria. Pelo menos, por R$ 5 mil não. A não ser que
estivesse a fim de chutar o pau da barraca.

Lakers vence

Novamente o Kobe Bryant nos dá uma aula de esporte. O jogo do título,
realizado no domingo, não trouxe muitas emoções nem surpresas. O momento-chave da vitória ocorreu na partida anterior, na semana passada, quando o Lakers perdia por uma boa vantagem para o Orlando Magic mas, mesmo assim, não entregou a rapadura.
Faltando cerca de 10 segundos para o fim, Bryant fez uma falta em Dwight Howard, uma das estrelas de Orlando. Nervoso, Howard errou os tiros livres. O Lakers foi pra cima e empatou com Derek Fisher fazendo uma cestaça de três,levando o jogo para a prorrogação. De moral elevada, o time de Los Angeles venceu o Magic com certa facilidade, por 99 a 91.

Dança dos famosos

Paola Oliveira me parece ser um excelente motivo para não desligar a TV nas noites de domingo. Para homens e mulheres.

Antes de ler isto aqui, leia o post abaixo. Ou não.

Para a turminha de sádicos trintões, segue uma lista com os cinco melhores desenhos do Pica-Pau (Eles vão sem os nomes porque estou com preguiça de pesquisar. Quem souber em envia):

+ Pica-pau na Legião Estrangeira (aquele do final em que ele beija a jovem protegida).

+ Pica-pau e o cuco. Episódio em que ele inferniza um relojoeiro suíço.

+ Pica-pau no faroeste, com a participação do Pé de Pano (só foi descobrir o nome do cavalo depois dos 29!).

+ Pica-pau louco. Qualquer um da fase psicopata do Pica-Pau.

+ Pica-pau e o gênio. Aquele que tem o ratinho se fazendo de gênio da lâmpada, com o Zeca Urubu.

pic40

Em minha nova rotina diária, consigo chegar mais cedo em casa. Bem a tempo de ver o Pica-Pau. É incrível como o desenho não envelhece. Meu filho adora e eu também adorava, quando pequeno. É incrível, também, ver como o Pica-Pau é um desequilibrado mental, desde sua origem.
O desenho que mostra seu nascimento revela que a sua mãe foi embora e o deixou com o pai. Pois não é que as primeiras traquinagens e ruindades cometidas pelo pássaro têm como alvo justamente seu progenitor? O coitado do velhinho sofre diante de um exemplar mais novo e completamente insano na sua busca por comida.
O Pica-Pau é uma força da natureza, que só para de agredir, de quebrar e de furar árvores ao custo de uma forte repressão. Sua moral é espartana. Com o tempo, esse caráter psicopático vai se abrandando. Algumas cenas chegaram até a ser cortadas.
Nessa nova fase, o Pica-Pau só apronta contra quem lhe ameaça. Mas, encerrada essa etapa da justificativa, tome bananas de dinamite, bicadas e golpes com tudo o que estiver nas mãos. Longe de encarnar um agente da vingança, o pássaro de cabeça vermelha sente prazer em tudo isso. Sofre no começo com os desmandos de seus rivais, mas fica feliz em vê-los subjugados, feridos e humilhados. O Pica-pau seria um excelente carcereiro em Guantanamo, na sua fase áurea.
A galeria de personagens dos desenhos do Pica-Pau são um caso a parte. Nos
desenhos mais antigos eles aparecem como figuras sujas, miseráveis, rotas. Um resumo do pior da bandidagem gangster americana. As figuras são feias, angulosas, egoístas e trapaceiras. Eles são os refugos sórdidos do Crack de 29, do período entreguerras em que o desenho é criado.
Me parece, contudo, que o Pica-Pau funciona como uma espécie de pós-graduação das historinhas infantis. Depois de ver casos edificantes, como os contos de fadas ou as fábulas que existem às pencas por aí, a criança se depara, então, com a crueldade do mundo real, traduzido graficamente pelo mundo brutal de Pica-Pau.
Achar graça diante de tal desenho é mostra de que, no fundo, somos tão sádicos quanto Pica-Pau. Ele é o nosso herói favorito por fazer coisas que não teríamos coragem ou que nos deixariam presos. Hehehehe, hehehehe, heheehehehehehehehehhehehehehhe!!!!

À terças, sábados e domingos, na Warner, passa uma série muito legal sobre os problemas de quem é muito inteligente, mas não sabe se relacionar muito bem: The Big Bang Theory. Pelo dá pra ver que não se trata de uma sitcom comum. No Blog Tecnosfera, do O POVO, saiu uma boa matéria sobre o assunto. Seguindo o espírito web 2.0. vou copiar e colar aqui sem pena:

“É fato, os nerds estão no poder. A Revolução dos Óculos Fundo de Garrafa teve início no final da década de 60 no Vale no Silício. Ao invés de armas, os guerreiros usaram engenharia, física e chips de computadores. Os principais representantes dos revolucionários são Bill Gates e Steve Jobs.

Nesse novo mundo, os nerds já têm até um programa de humor voltado exclusivamente para eles. The Big Bang Theory é um sitcom que conta a história de quatro nerds e uma vizinha loira. Inevitavelmente, o principal assunto da série é dificuldades que os “bem dotados intelectualmente” têm para conviver com pessoas “normais”.

O jovem cientista Sheldon é o mais desconectado socialmente do grupo. Ele apresenta transtorno obsessivo compulsivo, uma pitada de autismo e sabe que é um gênio. Apesar disso, ele se tornou o queridinho do público e existe até um site especializado nas suas camisetas – Sheldon Shirts.

A série é tão nerd que os produtores contrataram um físico para prestar consultoria. As melhores piadas nunca são explicadas, para entender é necessário repertório. Em um episódio, Sheldon foi a uma festa vestindo uma roupa com listras pretas e brancas dizendo que estava fantasiado de Efeito Doppler. (kkkkk). Entendeu? Não vou explicar.”

Segue o link do blog aqui

bbb

Para quem gosta de observar as relações interpessoais, o programa Big Brother Brasil é uma grande fonte de achados. A despeito das críticas que se faz à sua futilidade e à falta de qualidade, é interessante ver o comportamento dos integrantes ou, como eles gostam de ser chamados, dos jogadores. E quem nunca teve vontade de espiar o que outro faz escondido?

Todos querem ser bons. Todos têm uma história supersofrida. Todos precisam do milhão. Tudo isso é balela. O mais legal é o jogo de dissimulação, a construção das máscaras. Em alguns casos isso é tão explícito que nem o Bial aguenta. Ontem, uma das participantes disse que queria conhecer melhor outra participante, mas, mesmo assim, indicou-a para ser eliminada. Um cara disse que não tinha nada contra em quem iria votar, mas votou assim mesmo.

A culpa de toda essa encenação não é de quem está no programa. A culpa é de nossa mania ancestral de querer aparentar ser melhor do que somos. Em um textobastante pertinente, o psiquiatra Ângelo Gaiarsa pergunta: se todos nós somos bonzinhos, por que há tanta maldade no mundo?

Na verdade, queremos ser bons. Buscamos isso. Nada impede, no entanto, que tenhamos várias atitudes filhadaputa no decorrer do caminho. São Paulo diz, em uma bela passagem, que não fazemos o bem que queremos, mas o mal que não queremos.

A única diferença entre quem está fora e quem está dentro do BBB são as câmeras. No dia-a-dia, não dá pra ver aquela cara de mau gosto que fazemos após dizer sorrindo um “sim, senhor” ou ouvir aquele comentário maldoso logo após a saída de um desafeto.

Ao contrário do programa, não pra eliminar as pessoas que nos irritam (a não ser que se trate de algum serial killer). Temos de aprender a conviver. Isso gera frustração, pois, no mundo real, um dia você ganha, outro dia você cede. Mas como isso é difícil…

Para quem está dentro da casa e para quem está fora, o mais saudável seria assumir essas nossas fragilidades, a nossa mesquinhez. Essas coisas não são boas, nem ruins. Apenas, como diria um ex-BBB, fazem parte.

Em geral, não gosto desses programas que dão coisasa outras pessoas. Não porque elas não mereçam ou não necessitem, mas sim pelo caráter de sensacionalismo de quem faz. Os exemplos são variados. Para mim, quem quer ajudar ajuda e pronto. Não divulga, nem faz alarde.

Nesse sábado, no entanto, achei interessante a edição do programa do Luciano Huck, que presenteou uma família com casa nova, carro, dinheiro e experiências inesquecíveis. Não sei se é o espírito de fim de ano, mas gostei do que vi. Mais que pela enxurrada de coisas do que pelo exemplo apresentado por aquela família. Cuidar de dois filhos não é fácil. De 51 (46 adotados), então, é coisa para pessoas for do comum. Sem querer, talvez essa tenha sido a principal mensagem apresentada no programa: a de que não é preciso ganhar na loto para ajudar e que, com boa vontade, muito pode ser feito.

Mostrar que algo pode ser feito é bem mais produtivo que apresentar alguém com as mãos estendidas. Chega de assistencialismo. Passou da hora de tratar as pessoas menos favorecidas como pessoas capazes e não apenas como alvos de assistência, seja ela governamental ou midiática.

Saber se comunicar bem é uma arte. Principalmente quando o público com quem falamos é extremamente heterogêneo. O que é evidente para mim, certamente não é para você que está lendo este post. E vice-versa. Muitas das referências publicadas aqui, no Vida Paralela*, só são conhecidas por mim. Essa é a graça de um blog pessoal: ele te dá a oportunidade de entrar no mundo íntimos das pessoas, mesmo que não o compreendamos totalmente.

Passada a introdução, vamos para o ponto principal da coisa. Imagine, então, ter de se comunicar para milhões e ainda fazer a empresa com a qual você trabalha faturar? Não é mole, não. Para que isso aconteça, é preciso estabelecer um padrão médio de linguagem e de conhecimento. Não dá pra ser hermético em uma nova novela das oito.

Por essa razão, a trama de A Favorita me chamou a atenção. Foi uma opção arriscada iniciar uma história sem que estivesse bem claro quem era a “mocinha” e a “vilã”. O que em um filme de duas horas causaria frisson, numa novela de mais de seis meses pode espantar os telespectadores, tão viciados em linearidade. De um modo geral, toda novela é igual. O que muda é a carcaça.

Não é o que ocorre nesta novela. Ela se apresenta de forma diferente, quebrando os nossos padrões logo no início. Não há, a priori, a heroína. Não se tem para quem torcer ou detestar. E nem se pode prever o fim, como em 99% das produções. O “Quem matou?”, recurso usado para esquentar os capítulos finais, foi antecipado. Com ele, chega-se ao fim a fase da experimentação e de uma certa confusão entre o público para dar início, somente então, ao conceito de telenovela que todos nós conhecemos.

Quem assistiu aos comerciais exibidos pouco depois do capítulo ontem pôde  notar isso claramente. O recordatório  mastigadinho marca um novo começo,  válido tanto para quem não estava nem aí  quanto para quem assistia , mas não estava entendendo nada,  integrarem-se  à história.  Resta saber se em sua versão “clássica”, A Favorita conseguirá uma boa audiência, fim número um de qualquer coisa que passe na televisão.

P.S. Fica o registro aqui de como a Cláudia Raia está bonita. O Celulari que não me leia, mas ela está muito boa … atriz.

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