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Ontem fui dar aula. Estranhamente ninguém apareceu embora fosse uma quinta-feira. Na verdade, achei bom. Não tenho nada a ensinar a ninguém. Nem alguém tem qualquer coisa que seja a aprender comigo. A não ser, talvez, a ser um pouco mais sincero.
Quem sabe eu não passe a ministrar um curso de ignorância. Possivelmente ficaria mais realizado em perceber que os alunos, a cada aula, sairiam sabendo menos do que quando entraram. Estaria, assim, exercendo plenamente a minha incapacidade de transmitir conhecimento. Descobri que não tenho vocação para ser programa de rádio.
As costas dão o sinal de boas vindas da dor. São atraídas para baixo e somente com muito esforço a gente não vai junto de uma vez. Os pés afundam solidários, plantados na areia fofa. E a gente teima em se manter ainda na superfície. Por quanto tempo não sei. É apenas uma questão de instantes até sermos totalmente soterrados e as narinas se encherem de milhões de grânulos sedimentares. E o sol prossegue no cimo do céu sem nem nos dar o mínimo raio de atenção.
***
Quanto mais nos arrastamos mais nos sentimos afeitos ao chão. Do alto nada mais queremos, apenas aquele cheirinho de terra entrelaçado com o de mato é suficiente para aliviar nossas necessidades. De tanto nos arrastarmos, confundimo-nos com o solo em que um dia pisamos. Quem vê de longe não é capaz mais de fazer a distinção entre o que é gente e o que é larva. Ao pó todos voltaremos. Mas há quem dele nunca saiu.
***
A camada é fina, feito segunda pele. Branca e arenosa. Cristais sem valia alguma nos cobrem por inteiro. A coceira incômoda indica que o broto pede pra nascer. Ramos surgem do que antes eram pernas e os cabelos trançados viram um cipó com gosto de babosa. E o limo opõe-se ao sêmen. Uma seiva oblíqua é tudo o que vai restando. Transbordante e efusiva. Fluida e ressecada e pegajosa como mau amigo.
***
Se é para ser um arvoreco, um feixe de ramos descomeçado e senfindo, queria ao menos poder dar um alento de sombra ao andarilho. Uma língua de fogo, contudo, já se eriça sobre o dorso. Lambe o que antes era pelo, arde a extensão do correr dos parcos fios de galhos. Crepita por dentro cada vez mais rápido. Cada vez mais estalos são ouvidos em sua última chance, ainda que sob forma de nesga cinzelada, de chegar ao céu.
OA 130710 13:45
De Fachada
Um grito rouco se esconde
em um canto perdido de minha garganta.
Quem irá ouvi-lo?
Um olhar ensandecido crispa
sob minha fachada de serenidade.
Quem irá encará-lo?
Um vulcão islandês libera cinzas negras
na superfície de minhas entranhas.
Quem sentirá o gosto da lava?
A figura que conversa, movimenta-se
e faz acordos comerciais com outras figuras
nada mais é que uma pálida expressão,
uma sombra que vagueia entre palmeiras
tentando se esconder em meio a uma
rua ensolarada de um domingo qualquer.
***
Afeto
Como um feto largado no chão.
Assim Você me reencontrou.
Da mesma forma como
havia me deixado.
Sem ofensas,
queria te mandar direto pro inferno,
mas não te aceitam por lá.
Deixe quieto.
Sem teu combustível eu não teria
a mísera noção sobre o que escrever.
Como um feto aconchegado no colchão.
Assim Você me deixou.
Da mesma forma como
havia me reencontrado.
Sem ofensas,
queria te mandar direto pro céu,
mas faltam vagas por lá.
Deixe quieto.
Sem ter de te escrever eu não teria
um mísero combustível para sobreviver.
***
Bêbado
O álcool ainda encontra morada em minha pessoa.
Como um anjo que abençoa, mas depois reserva uma praga.
Como um par de belas pernas que lhe dão uma rasteira.
Como um grupo de amigos que te lincham de brincadeira.
E quanto mais me apego, mais quero pegar.
Amasso latas reclamando a falta de te amassar.
Cobro um afago, mas me contento com um trago.
Contemplo garrafas com vontade de me afogar.
E nessa barraca abandonada, pés na areia…
Sentimento não há, somente a menta
Que escorre da boca do meu copo.
Que escorre da borda do meu corpo.
Odracir Aruom
Só de cima se podia ver o caminho. Círculos, retas, diagonais, clareiras mais abertas que outras. As picadas eram abertas a braços abertos, passos pesados, dentes rangidos e persistência angustiosa. Os sulcos marcados, contudo, vezoutra se ligavam, tracejando uma circularidade indesejada, malquista. O fim da picada. A mata, densa, possuía uma coloração verdorroseada, com veias saltitantes irrigadas por um suco hematoso. Seus bastões soavam parecidos aos de cana implantados em um milharal revolto.
A cada passo, uma resistência. A cada esforço, uma resposta. Um desavisado chamaria aquilo de meio do nada. Na verdade, estava no meio de tudo. E esse era o grande problema. Como criar uma pegada inaudita em solo tão repisado? Como renovar o passo sobre solados tão diversos? Movediço terreno de banalidades, de prontidades, de geniosismos.
Às vezes desejava ficar ali apenas, em uma das curvas escavadas pelos próprios pés, com as costas apoiadas em um encosto dendrítico torcicolado. Não poderia, é claro, permanecer por muito tempo sob aquele abrigo improvisado. As constantes descargas elétricas que serpenteavam os bastões incomodavam-no. Pinicavam a pele e eriçavam os cabelos, numa sensação desconfortosa.
Pernas estendidas, braços esticados. Hora de se por em marcha. Lenta, arrastada, tropeçante. Mas sempre em movimento. Até quando tudo isso, não sabia. Círculos, retas, diagonais, clareiras mais abertas que outras. De cima podiam ser vistas. Lá de baixo, no entanto, havia apenas o mato imenso, obseo: uma cerrada parede de gêmulas sisíficas a serem desbastadas.
Odracir Aruom, 13:49, 050510
Adoro descobrir palavras novas. Na semana passada, conheci várias. Safeeling e globesidade foram as mais interessantes. Enquanto a primeira indica uma busca bastante atual por produtos e serviços que transmitam uma sensação de segurança, a segunda retrata o nível a que chegou a epidemia de obesidade no mundo. Como se vê, são dois novos nomes que tentam explicar a dinâmica ultraveloz do mundo em que vivemos. Como todo bom feiticeiro sabe, a capacidade de denominar as coisas e pessoas é o primeiro passo para que se tenha poder sobre elas.
O escritor português António Lobo Antunes esteve no Brasil participando da Feira de Paraty, onde falou sobre seus livros e da literatura em si. Em entrevista à revista Época, ele tratou das mesmas questões. Destaco aqui, neste blog, a última resposta. Creio que ela é chave para que se possa entender as motivações que levam uma pessoa a escrever, apesar de todas as dificuldades:
Lobo Antunes – Não entrei na literatura para ser um escritor qualquer. Quero ser maior que Tolstói e Joyce – e acho que todo escritor tem de pensar assim, senão ele não produz nada. Ele tem de pensar em coisas grandes. Comecei a escrever porque queria revolucionar o romance, subverter a literatura, transformá-la em algo que ainda não existia, ofuscar os antepassados. Quero colocar tudo num livro, o mundo inteiro, minha vida inteira. Quero praticar a obra de arte total que imaginava Richard Wagner. Escrevo livros impossíveis. Se me ocorre uma história que me sinto incapaz de formular, é aí que começo um livro. Quero escrever sobre o que não entendo. É assim que vou contornando os problemas, e chamam isso de estilo experimental. Na verdade, é uma atitude de enfrentamento. E de liberdade. É por isso que não creio na profundidade. O que existem são infinitas superfícies superpostas. Quando você se aprofunda demais em um assunto, acaba saindo pelo outro lado, de mãos abanando. Escrever é um ato impossível, porque tudo o que interessa vem antes das palavras, como as intenções, os desejos, a loucura. Os poetas são maiores porque conseguem transferir essas coisas inomináveis para as palavras. Mas escrever também é um ofício, como o de carpinteiro. É preciso conhecer a técnica, para abandoná-la. Todo grande livro é uma reflexão profunda sobre a arte de escrever. Cada livro meu tem de ser um mundo.
Na sexta-feira passada tive o prazer profissional e pessoal de fazer parte da bancada de entrevistadores do escritor gaúcho Moacyr Scliar. Para quem gosta de escrever como eu e espera, um dia, ver seus textos publicados em forma de livro, a conversa não poderia ser mais proveitosa.
A dedicação com que Scliar se entrega ao ofício de escritor e a alegria que sente em escrever podem ser destacados como aprendizados importantes dessas duas horas de conversa. O mediador da coletiva, Plínio Bortolotti escreveu em seu blog um interessante comentário sobre o programa. Vou reproduzir trechos aqui. Quem quiser ler o material na íntegra, pode acessar o site do O POVO (www.opovo.com.br). A matéria do jornal saiu no sábado, dia 30/05.
“A mãe de Moacyr Scliar era leitora de José de Alencar, por isso o futuro escritor gaúcho ganhou o cearense nome do filho de Iracema, um dos romances mais representativos da literatura brasileira. Scliar, contou a história em um dos intervalos do programa que apresentei hoje [29/5/2009], entre 10h e 12h na rádio O POVO/CBN, no projeto O POVO Quer Saber.
Estiveram comigo os entrevistadores Miguel Macedo, Henrique Araújo e Ricardo Moura [jornalistas] e Tércia Montenegro [escritora]. Justificadamente, quem ganhou elogio dos entrevistado – “boa escritora, jovem e bonita” – foi somente a Tércia.
Scliar – médico especialista em saúde pública – é considerado um dos escritores brasileiros mais importantes da atualidade. Tem mais de 70 livros publicados e é imortal da Academia Brasileira de Letras [ABL] desde 2003.
Frases
“O escritor busca a verdade do ser humano”
“Pessoas felizes não escrevem”
“Quanto a pessoa está doente, muito doente, as máscaras caem” [sobre sua experiência como médico]
“Às vezes meu lado médico estranha o meu lado escritor e, às vezes, meu lado escritor estranha o meu lado médico”
“Me tornei médico porque tinha medo da doença” [Ao dizer que ficava aflito quando via algum de seus pais doentes, sem poder fazer nada, por isso passou a querer entedenter de medicina]
“Não entendo o livro que faz o leitor sofrer” [por ser um texto "chato"]
“Ser escritor não é só botar o mal-estar para fora, é saber trabalhar com as palavras”
“Eu não sou litigante” [Ao explicar por que não processou, apesar da insistência dos advogados, o escritor canadense Yan Martel, que no livro A vida de Pi, usou a mesma trama de seu livro Max e os felinos.
"Álcool não é fonte de inspiração" [declarando-se abstêmio, ao ser perguntando sobre a relação literatura e álcool]
“A pessoa recorre ao álcool pelo mesmo motivo que escreve: o desamparo social, só que escrever é libertador e o álcool escraviza”
Acrescento aqui uma frase que ficou de fora dessa lista, mas que achei bem legal: “O botão delete é um importante aliado da Literatura”.
Reuniões, doença, greve, aula, textos para escrever e um dentista no fim do dia. Ainda assim, vale a pena dar uma pausa para ler Caio Fernando Abreu ou, para os mais íntimos, Caio F.
O amor simplesmente acontece. É isso.
Peço desculpas aos meus três leitores, mas, como sempre, há uma lista enorme de coisas para ser feitas. Pela persistência, ofereço-lhes alguns aforismas de Nietzsche, em “Humano, Demasiado Humano”:
531 – Aquele que vive de combater o inimigo tem interesse em que ele continue vivo.
544 – Quem vê pouco, sempre vê menos; quem ouve mal, ouve sempre algo mais.
557 – As pessoas que não podemos suportar procuramos tornar suspeitas.
566 - O amor e o ódio não são cegos, mas ofuscados pelo fogo que trazem consigo.
568 – Esquecemos nossa culpa quando confessamos a outro alguém; mas geralmente o outro não a esquece.
A palavra desta semana é “brechar”, artigo legítimo do cearensês. Certamente surgiu do hábito de se espiar moçoilas e, por que não, moços por meio de frestas na parede ou portas, as ditas brechas. Pois não é que aquele espaço vazio virou a própria denominação do ato? Ou seja, quem olha pela brecha, brecha!
Se brechar era substantivo e virou verbo, o contrário também pode acontecer. Se tem uma expressão que não gosto é “o comer”, que dá nome a refeições como almoço e janta. Ex: “Minha mãe preparou o meu comer”. Ou: “Estou esquentando o seu comer”.
Por que não usar o nome específico daquela refeição? De comer pode se referir a qualquer coisa mastigável! Se há algum defensor dessa expressão, pode se manifestar!
