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“2:42 PM
me: vou parar de beber
de hoje até sexta não vou beber!
Tita: hhahahahhah
realmente, vc tem bebido bastante ultimamente
2:43 PM
me: são os problemas
bebo pra esquecer
2:44 PM
Tita: q problemas
tá doido
2:46 PM
me: esqueci quais são
acho q o álcool já tá fazendo efeito
2:49 PM
Tita: eh a velhice mesmo, nene
2:50 PM
me: é, né?
né, é?
2:51 PM
Tita: vai cagar, feliciano
vem me ajudar q eh melhor
bota toda tua loucura no meu…
2:52 PM
me: q é isso?
Tita: projeto
me: ahahhahahhahhahhahahhahhaha
Tita: tava pensando besteira
hahhahahahah
2:53 PM
me: tá fresquinha, hein?
Tita: boa boa
me: foi
parabéns
2:54 PM
Tita: congratulations Brazil

Madrugada. Raul montava um quebra-cabeça no chão da sala. Fazia frio, mesmo com a janela fechada. As peças formavam a imagem de uma paisagem bucólica, com uma grande céu azul a cobri-la. Sua paleta de azuis, contudo, variavam imensamente: marinho, grená, bandeira, neblina, piscina e celeste. Em meio a cada um deles, a transição se dava de forma sutil, mi-li-me-tri-ca-men-te. Os detalhes lhe eram, por vezes, quase imperceptíveis. Como distinguir uma peça de outra? Era quase uma escala Pantone fragmentada em dois mil pequenos encaixes.
O interesse pelo jogo era recente. Resultado de uma crise de ansiedade. Sua vida era hiperconectada. 24 horas. Sete dias por semana. Full time. Updated. Non-stop. Por ordens médicas, teve de retirar o plugue. Soube disso após passar três dias inteiros acordados, conectado à internet, em um site de relacionamento e outro de comunicação instantânea. Tudo começara com um grupo de dez amigos. Depois, ampliou para 50 e 100. Quando viu, possuía 642, 789, 910 contatos. Quando uma leva saía da rede, pela manhã, outra chegava à tarde e era prontamente substituída à noite. Havia, é claro, os confrades da madrugada. Raul interagia com todos, a toda hora. E haja assunto. Falavam de todos e sobre tudo. Quando não tinha nada a comentar, ficavam transcrevendo o que se passa na TV. Entre parênteses, comentários e breves análises.
Em verdade, suas ações se guiavam por esse norte: brevidade e improfundidade. Nada de assuntos muitos polêmicos ou divagações sobre a vida pessoal. Esses eram assuntos tacitamente banidos das conversas. Eram coisas para se debater pessoalmente. O problema é que Raul e seus 910 amigos on-line, cybers, virtuais, popupáticos nunca se encontravam. Permaneciam cada qual em sua ilhota digital, sem saber nadar e sem dispor de embarcação. À sua disposição, apenas uma fogueira e sinais de fumaça. Se levássemos a cabo tal alegoria, o desflorestamento de tais ilhas seria algo incalculável, vítimas inertes de um fogo inconsumível. Sobras e cinzas se espalhariam pela planície, indicando que a troca de mensagens havia sido demasiado extensa, fatigando a terra, tornando-a árida.
Na terceira noite, do terceiro dia, Raul surtou. Começou a teclar frases desconexas e a mandar mensagens para destinatários errados. Enquanto dizia boa noite a quem mantinha uma conversação há horas, e emendava um relato a quem acabava de se conectar, com direito a três pontos no início e no fim. Em seguida, o braço foi se enrijecendo e a vista ficando escura. O verde do comunicador misturava-se com o roxo da rede de relacionamento e o vermelho do provedor de notícias. Logo, estava se comunicando com um acidente que vitimou quatro pessoas no Gabão, ao mesmo tempo em que adicionava como amigo um time de futebol que ganhara a Libertadores naquela manhã.
Ao perceber que não estava passando bem, tentou chamar por socorro, mas não conseguia digitar as notas vocais corretas. O socorro médico foi acionado pelo seu colega de NSF número 298, depois de ele ter notado que sua pergunta demorava mais de dois minutos para ser respondida.
No consultório médico, Raul deu-se conta de que passara três dias sem fazer refeições, alimentando-se apenas de refrigerante e biscoitos. As olheiras lhe caíam como a de um cachorro. Estava com o rosto vincado, mas sem expressão, como se tivesse dado tilt. Alguns espasmos foram registrados horas depois, causados pela abstinência. Celulares, bandejas, soros, sabonetes, tudo lhe servia como um mouse imaginário. Passava horas assim, conectado a sabe-se-lá que cabo. Por pouco, não foi diagnosticado como autista tardio.
A prescrição era clara. Nada de artigos eletrônicos. Rádio, talvez, mas bem baixinho. A família comprou livros com muitas figuras e assinou revistas para mantê-lo informado. Os quebra-cabeças foram idéia dele. Tinha visto em algum site que poderiam ser terapêuticos. Seu trabalho concedeu-lhe uma licença especial. Afinal de contas, era um bom empregado, só meio antisocial e desligado.
Por enquanto, Raul dedicava-se ao seu desafio interior de se recuperar e montar aquele quebra-cabeça de duas mil peças. Ele não sabia, mas várias peças faltavam àquele jogo. Assim como a vida, seu quadro nunca ficaria completo, por mais que tentasse.

030209

Odracir Aruom

Quando o cérebro empaca, é melhor escrever alguma coisa. Para ver se pega no tranco. Ruim é quando nada sai. Não vou cair nesse clichê aqui. Vou contar uma historinha. Breve.

Ela gostava de chutá-lo. Dava-lhe uma sensação de poder. Ele não gostava de ser chutado, mas ficava quieto no seu canto, murcho. Bola era seu apelido. Os vizinhos sabiam de toda aquela arrumação. Havia um ritual estabelecido. Ela calçava as chuteiras, apitava e então começava a chutá-lo. Na cabeça, na barriga, nos braços e nas bolas.
As coisas pioraram quando ela começou a chamar as amigas para chutar o marido. Pelada, assim chamavam o que faziam. Ele também não gostava de ser chutado por várias mulheres.
Bola curava seus hematomas em um hospital público, sempre o mesmo. Dizia que era briga, que bebia e depois arranjava. No início, acreditavam em sua versão. Depois, passaram a juntar os fatos. As marcas das travas eram bastante evidentes. As enfermeiras tinham pena, mas a vontade de chutá-lo falava mais alto. Entre um esparadrapo e outro, elas lhe davam um bicudinho na canela. Bola gania.
Um dia, em uma das peladas, o abdome de Bola foi perfurado. O sangue começou a jorrar. Ela ficou assustada. A tensão era visível. Seu único pensamento era: “Porra, furei a bola e agora?”.
Bola foi remendado.
“Não rola mais como antes, mas dá para fazer umas embaixadinhas com ele”, comentou com uma amiga, dias depois. 
“Por que você faz isso com ele?”, questionou ela. “Eu o amo, mas gosto de chutá-lo”, respondeu.

A certeza é a causa dos piores erros.

Frase ouvida em um restaurante em Cachoeira dos Índios (PB):

“Se estou longe, saudade. Se estou perto, briga”.

Pode ser adotada para muitos relacionamentos por aí, não acham?

Estamos em ótima companhia:

“Com freqüência, me parece que a noite é mais viva e mais colorida do que o dia”

Vince, o Gogh

Quebranto,

Mau-olhado,

Olho gordo;

Eu acredito

E você?

Que saudades do sol… Onde ele estará agora? Ser um animal noturno tem suas desvantagens.  Nossa luz, comida, sons e companhias são todas artificiais. A noite é uma obra de ficção. É nela que estão contidas nossas fantasias. É nela que podemos colocar nossas máscaras.  E viver da forma como gostaríamos que fosse nossas vidas.

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