esse texto tem hora pra acabar. 12h00. morro de medo de não saber quando uma coisa chegou ao fim. é como se continuasse dançando, de braços estendidos, enquanto a minha parceira de dança, sentada há tempos em uma mesinha lateral, se refresca tomando um gole d’água e ri da minha cara ao me ver sozinho no salão. é como passar da parada em um ônibus lotado, em plena madrugada. é como caminhar sonâmbulo enquanto todos já estão acordados, bebericando café com tapioca.
para quem é ansioso, o tempo é como se fosse uma droga. causa dependência. causa síndrome de abstinência, com direito a suores e palpitação. ser ansioso é querer viver tudo ao mesmo tempo agora e se lamentar por ter aproveitado tão pouco tudo que vive, pensando no que viria a seguir. é escrever sem maiúsculas, com medo de deixar os segundos escorregarem por entre os dedos e marcar os minutos como se tivesse algum tipo de controle sobre o relógio.
dizem que escrever acalma. ajuda bastante, mas corre-se o risco de se enveredar por uma terapia coletiva conduzida por uma multidão de médicos amadores.
ao ler essas linhas, considere-as como uma manifestação sintomática de um transtorno de comportamento. não mais que isso. depois de expectorar, o paciente metido a escritor põe-se de volta às suas atividades cotidianas. parou de bufar e de se contorcer. o surto foi externalizado e contido, não representando mais nenhum risco à coletividade.
minha sessão diária terminou.
12h10.
droga. mais uma vez não soube a hora de terminar…
OA

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