Prometes que me deixarás quieto
tão logo eu termine de escrever
estas linhas?
Tu que te assentas sobre mim,
tal qual
nuvem negra
sobre o deserto.
Desassosegas, mas não se precipita.

Alegras-te com meu temor interior,
sem direção & insidioso.
Digas, podes revelar-me,
que meu palpitar vezo
e inconfessável travestido de eficácia
te faz grunhir um riso aberto e debochado.

Sabes que meus muitos planos de ação
feitos apenas para me defender de ti
são apenas trincheiras defasadas,
artifícios inúteis e solapáveis de um
boneco oco
que pensa não ter cordas atadas
a seus pulsos por meio de orifícios.

De todos meus remédios, tu és a única cura
e minha moléstia.
Beijas minha boca enquanto tua língua
perfura, salivosa, minha garganta
& curtimos juntos o botão que nunca para,
ainda que já não haja mais menor
vestígios/restos
que se possa pressionar.

Me deixaste gordo, pálido e insone.
Me queres do teu jeito, a teu bem definir.
Cesso de comer, empaturro-me, pedalo sem parar.
Uivo, gano e me aquieto.
Tudo para que te regozijes,
enchas bem teu saco de mim & que
um dia
me largues solto & respirante ainda
em qualquer pousada,
quiçá em um pouso forçado.

E que eu possa fincar minha morada na data presente,
na hora quebrada, no minuto candente,
no segundo que se sente.
No que minha vida tem de
pulso
e não de pulsão.

Odracir Aruom 070711 01:46

Ele mascou um chiclete já sem açúcar.
Insipidamente, olhava os passantes.
Sua vida estava igual à guloseima:
mascada, inútil e sem gosto.

Odracir Aruom 08.02.08







esse texto tem hora pra acabar. 12h00. morro de medo de não saber quando uma coisa chegou ao fim. é como se continuasse dançando, de braços estendidos, enquanto a minha parceira de dança, sentada há tempos em uma mesinha lateral, se refresca tomando um gole d’água e ri da minha cara ao me ver sozinho no salão. é como passar da parada em um ônibus lotado, em plena madrugada. é como caminhar sonâmbulo enquanto todos já estão acordados, bebericando café com tapioca.
para quem é ansioso, o tempo é como se fosse uma droga. causa dependência. causa síndrome de abstinência, com direito a suores e palpitação. ser ansioso é querer viver tudo ao mesmo tempo agora e se lamentar por ter aproveitado tão pouco tudo que vive, pensando no que viria a seguir. é escrever sem maiúsculas, com medo de deixar os segundos escorregarem por entre os dedos e marcar os minutos como se tivesse algum tipo de controle sobre o relógio.
dizem que escrever acalma. ajuda bastante, mas corre-se o risco de se enveredar por uma terapia coletiva conduzida por uma multidão de médicos amadores.
ao ler essas linhas, considere-as como uma manifestação sintomática de um transtorno de comportamento. não mais que isso. depois de expectorar, o paciente metido a escritor põe-se de volta às suas atividades cotidianas. parou de bufar e de se contorcer. o surto foi externalizado e contido, não representando mais nenhum risco à coletividade.
minha sessão diária terminou.
12h10.
droga. mais uma vez não soube a hora de terminar…

OA

Nos dois anos passados, os dias que antecederam meu aniversário foram de reflexão. Primeiro, a perspectiva de envelhecer, aos 30. Depois, o sentimento da solidão, aos 31. Nos 32, que se avizinham agora, não tive nem tempo de pensar nessas questões macro – por causa de uma série de razões – mas mesmo assim me meto a escrever sobre mais uma passagem de ano.
O tema desta vez são meus filhos. Sei que soa clichê dizer que a gente aprende com eles, que eles são um presente divino e coisa e tal. Mas é verdade.
Os filhos, principalmente quando mais pequenos, são como espelhos onde a gente pode ver o reflexo de nossos atos. À medida em que eles começam a ganhar autonomia, a pensar por si próprios, todo o nosso sistema de crenças começa a sofrer abalos diante de questionamentos tão profundos e, ao mesmo tempo, tão simples. É o mundo da criança interrogando o mundo do adulto. E isso é muito bom.
Para quem se interessa pelo ser humano vale muito a pena ver o interesse deles em alguma coisa, o modo como resolvem as dificuldades, seu senso do que é certo e do que é errado. As loucas conclusões a que chegam ao unir elementos, por vezes, que não possuem qualquer relação entre si (ou possuem, sei lá).
É reconfortante encontrá-los ao fim do dia, atirando-se sobre meu corpo e quase me derrubando, em uma demonstração gratuita de afeto. É mais um turno que começa, uma matinê ao inverso que só tem início depois das 18h. Esse é um período em que a frieza dos prazos e as urgências do dia-a-dia não desfrutam de qualquer domínio. É um tempo moleque, incriado e infinito. É um tempo que a gente já viveu um dia, mas está escondido em alguma dobra do cérebro.
De qualquer modo, continuamos a envelhecer e a nos sentirmos só. Mas com os filhos, nossos pequenos companheiros, essa jornada torna-se muito menos dolorosa. E imensamente mais feliz.

O que foi escrito há um ano…
3.1.
setembro 10, 2009 in Pessoal (Editar)

Cada aniversário traz em si um momento de autoreflexão. Pelo menos é isso o que acontece comigo. Resolvi meu dilema pessoal da idade avançada na chegada os 30.

Aos 31, minha preocupação atual é a solidão. Percebi que estamos irremediavelmente sozinhos no mundo. Estar só não é estar em um deserto, sem alguma alma viva. É responder

solitariamente aos desafios que a vida nos impõe. É não poder compartilhar integralmente a nossa angústia pessoal, que é só nossa.

Será que estou falando sozinho?

(Atualização)

P.S. Dá um certo alívio saber que outras pessoas também se sentem assim. Que tal formamos a Banda dos Corações Solitários do Sargento Pimenta?

Sempre escrevemos para alguém.
Mesmo que esse alguém não saiba;
mesmo que esse alguém não nos leia;
mesmo que esse alguém nem
mesmo ainda tenha nascido;
mesmo que o texto nunca venha
a se tornar público;
mesmo ainda que o texto sequer
tenha saído de nossa cabeça.
É isso.

Odracir Aruom 030910 10:53

É possível conhecer algo que seja universal através de apenas uma pessoa?
Ou melhor, é possível conhecer o Universal através apenas de si mesmo?
Uma colher de água basta para saber o gosto que tem o oceano, como diria Solzhenitsyn?
Ou, melhor ainda, por que é tão importante responder a esta pergunta?
São questões para serem respondidas após o feriado, claro…

Era um campo florido. Andava em meio a uma dezena de tipos de flores diferentes. Não convém citar, para dar ao leitor a possibilidade de imaginá-las em sua cabeça.
Esticou o braço como que para pegar algo, mas não conseguia. Queria sentir as costas do tempo. Queria tocar as ondas de que são feitos os pensamentos.
Sentou na grama e começou a pensar “E se tudo fosse diferente?”

Era um campo vasto. Andava em meio a pedregulhos, margeados por um rio bem calminho. As pedras eram várias e uma descrição das mesmas cansaria o leitor.
De braços abertos, sentia o vento. A definição escolar “o ar em movimento” não dava conta da sensação de ser um com o que é diverso.
Sentou em um rochedo e começou a pensar “E se tudo fosse diferente?”

Era um campo de futebol. Andava em meio a uma multidão de gentes, que balançavam bandeiras e gritavam impropérios tão escabrosos que seriam censurados pelo autor do texto.
De braços abertos, tocava as pessoas e era tocado. A humanidade lhe afigurava um gigante multimembroso e quente. Um gigante bom, em nada parecido com os das Odisséias.
Sentou na arquibancada e começou a pensar “E se tudo fosse diferente?”

Para os que estão na encruzilhada, ou seja, todos nós, o tempo todo.

OA 22:31 290506

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