Voltando a postar, mesmo correndo contra o tempo e tendo de fazer trocentas coisas ao mesmo tempo. Mas vamos lá, teremos muito tempo a sete palmos do chão. Li recentemente dois textos que retratam a caretice de nossa juventude. São radiografias de gêneros distintos, mas que perpassam o mesmo fenômeno: nossa sociedade está mais conservadora. Você pode dizer que isso sempre foi assim. Pode ser. Mas quando são os jovens que assumem essa postura é algo que, pelo menos para mim, preocupa.
Os exemplos aqui citados referem-se ao campo da cultura. A internet merece um capítulo a parte, com seu efeito de encapsulamento e o excesso de “virtualismo” das relações. Quando se leva a discussão para o campo da política, a questão se acentua. Sem ditaduras, fica difícil dizer contra quem lutar. Para muitos, não há mais nada a ser feito, resta apenas se dar bem, do jeito que for. Quem serão os malditos do século XXI? Precisamos mais que nunca deles hoje. Quem se habilita? 

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O rock brasileiro precisa morrer, por Vladimir Cunha

Tecnicamente o rock é um negócio limitado pra caralho. E justamente por conta disso ele sempre foi movido por sua capacidade de gerar possibilidades, sejam elas de fuga ou de auto-afirmação. O poder mobilizador do rock não está em uma resposta consciente a uma determinada construção simbólica. A música não arrebata ou emociona pelo seu aspecto formal e sim pelas possibilidades de criação que permite ao ouvinte. Nos últimos 50 anos, o que o rock pôde oferecer nesse sentido sempre foi mais interessante do que aquilo que ofereceu como expressão artística. É o que explica a sua necessidade de reinvenção e conflito consigo mesmo na qual está metido desde que, dos anos 60 em diante, gerações de músicos floresceram negando umas às outras, conflitando símbolos e pontos de vista, oferecendo aos ouvintes um ciclo contínuo de morte e renascimento.

Foi preciso que a Invasão Britânica fornecesse um novo ponto de vista ao rock’n’roll para que, a partir dela, todos os sub-estilos do rock se desenvolvessem na segunda metade dos anos 60. E quando os códigos e paradigmas dessa mesma geração se transformaram na pretensão vazia e elitista do rock progressivo – que fornecia escapismo, mas não diversão e catarse – surge o punk rock, pronto para criar um novo horizonte de possibilidades para os jovens sem futuro de todo o mundo. Quando não se tem isso, trata-se apenas de música pop no seu pior sentido, um produto da indústria do entretenimento com propósito e vida útil bastante definidos.

Agora imagine que você é um garoto de 12 anos, ainda meio confuso com os pentelhos crescendo, as espinhas na cara e o súbito interesse nas meninas da rua, curando com muita punheta e site de mulher pelada o fato de que todas elas te acham um zé-mané. Você não é mais criança, mas também não é adulto e precisa encontrar uma trilha sonora decente para esse período de turbulência. Você sintoniza uma “rádio rock” qualquer, liga a TV e ai vem a pergunta: que possibilidades de criação, revolta e catarse oferece a você o rock brasileiro dos anos 00?

Provavelmente nenhuma. Essa foi a única resposta que passou pela minha cabeça enquanto via a banda Cine lançar o clipe de “Garota Radical”, seu primeiro single, uma overdose de cores cítricas e penteados mirabolantes na qual os músicos são apresentados como se fossem caixas de sabão em pó. A produção profissional e higiênica ocupa tanto espaço que não existe aqui nenhuma brecha para a criação de um novo olhar. Mas, espertamente, e por ser um produto voltado para adolescentes do sexo feminino, a imaginação foi deliberadamente substituída pela fantasia, seja ela sexual ou afetiva.

É assim que se apresenta o rock brasileiro nos anos 00: como um veículo de satisfação imediata, que por ser baseado em regras de mercado, e não em imaginação e força criativa, não possibilita o estabelecimento de um novo paradigma ou de uma nova percepção. NXZero, Fresno, CPM 22, Leela, Capital Inicial, Cachorro Grande… todos esses grupos apresentam-se apenas como produtos da indústria cultural e como uma caricatura de transgressão e não como proponentes de novas possibilidades de criação.

(…)

Pra mim o rock brasileiro acabou em 1991, quando Paralamas do Sucesso e Titãs lançaram os seus piores discos até então, respectivamente “Os Grãos” e “Tudo Ao Mesmo Tempo Agora”.

Logo depois, o Nirvana dominou o mundo. Em comparação com o trio de Seattle, QUALQUER rock feito no Brasil soava anacrônico, mofado e desprovido de sentido (Sepultura corria por fora e é uma outra história). O Capital Inicial e a infame “Mickey Mouse em Moscou’ só nós deram mais certeza de que, naquele momento, era necessário virar as costas para o país.

Foram precisos três anos, duas bandas de Pernambuco, quatro moleques de Brasília e um bando de maconheiros do Rio de Janeiro para que fosse possível confirmar a viabilidade de uma música pop genuinamente brasileira. O mangue bit, os Raimundos e o Planet Hemp mudaram tudo ao cruzar gêneros, desafiar convenções de mercado e estabelecer um novo padrão de composição, que fugia do rock, se aproximava do rap e tinha como referência as contradições das grandes cidades brasileiras. Suicidal Tendencies e forró, hip-hop e a malandragem da Lapa, skate e maracatu. Ídolos pop de uma linhagem suburbana, a continuação pós- moderna do imigrante que enxerga a metrópole a partir de uma perspectiva muito particular.

Cabelo carapinha, pele escura e dreadlocks em choque com o arianismo gélido e encapotado do rock dos anos 80.

Mas a onda que quebraria com toda a força em 1994 recuou e se diluiu, ainda que seus respingos estejam por aí. E o ciclo de destruição pop se repete quando a música jovem feita hoje no Brasil, pelo menos a que se impõe no mainstream, surge da negação da década passada ao abraçar o rock tradicional da mesma maneira que a geração dos anos 80. O som é californiano e o padrão estético a ser perseguido não está na periferia das cidades brasileiras e sim nos subúrbios norte-americanos; sejam eles reais, idealizados ou mesmo replicados de maneira pobre nos condomínios de São Paulo e da Barra da Tijuca.

A saída pode estar na nova eletrônica brasileira do Montage, dos tecnobregas de Belém do Pará e do Bonde do Rolê ou até mesmo na nova MPB feita pela vanguarda paulistana liderada por Curumin, Céu, Lucas Santana e Fernando Catatau. Mas mesmos estes parecem pequenos e segmentados demais para fazer algum barulho fora do gueto chique da Vila Madalena. Enquanto isso, o rock brasileiro – ou o pop, caso seja preciso usar um termo mais amplo – continua devendo uma nova possibilidade de criação e uma nova construção de significados. Só assim será possível dar vazão à vontade adolescente de gritar que o mundo é uma merda.
++++

Broxante, por Marcelo Paiva

Me explicaram ontem o sucesso da saga CREPÚSCULO, que esgota livros e lota os cinemas.

Fiquei chocado.

Trata-se da história de vampiros virgens, politicamente corretos e vegetarianos, escrita por uma autora conservadora MÓRMON.

O vampiro gato só vai morder e chupar o sangue da gatinha depois de se casar com ela [NO TERCEIRO LIVRO]. Apesar dos apelos dela no SEGUNDO livro.

Nem o LOBISOMEM papa a mocinha, por respeito aos bons valores do celibato.

E não comem carne de animais, apenas chupam o sangue deles.

O livro-filme é adotado pela onda conservadora que varre a nova geração, que retoma o tabu da virgindade.

É uma afronta ao espírito libertário e provocador do personagem vampiresco, que suga o sangue das virgens e as amaldiçoa, arquétipo europeu comum à civilização ocidental e da modernidade, síntese da luta desejo versus moral.

E o galã do filme é considerado o ator mais sexy do momento. Então as menininhas assistem à LUA NOVA, babam e se recolhem.

Ainda bem que vim de outra geração.

VIVA MICKEY ROURKE!!!

She’s a rainbow and she loves the peaceful life
Knows I’ll go crazy if I don’t go crazy tonight
There’s a part of me in the chaos that’s quiet
And there’s a part of you that wants me to riot

Everybody needs to cry or needs to spit
Every sweet tooth needs just a little hit
Every beauty needs to go out with an idiot
How can you stand next to the truth and not see it?

Fruto

Caiu feito fruta madura no chão da calçada.

Do nada, sem motivo algum.

Os passantes que ouviram o barulho ficaram aturdidos.

Pensaram tratar-se de um acidente ou coisa assim.

Mas não era.

Em questão de minutos o socorro não veio,

mas uma pequena multidão começava a se formar

em torno daquele um.

“Seria pegadinha”, pensou uma dona de casa,

atravessando o olhar em todas as direções,

em busca de uma câmera escondida.

Na verdade, era e não era uma pegadinha.

Dessa vez a TV não tinha culpa.

A vida era a autora solitária de todo

aquele acontecimento.

No chão, feito fruta madura, ele pensou

no tempo em que ainda fazia parte da árvore

e da dor que sentiu ao ser colhido de maneira

tão abrupta dos galhos da mãe.

Estava só ali, exposto perante desconhecidos.

Olhado sob minúcias, apalpado como quem é escolhido

para o lanche do fim da tarde.

No chão, feito fruta madura, descobriu o

quanto era sozinho.

Não havia ninguém para apanhá-lo.

Não havia ninguém para retirar suas partes estragadas.

Não havia ninguém para lavá-lo e descascá-lo.

Não havia ninguém para comê-lo.

Odracir Aruom 210909

 

NOVELO

Envolto em fios, sigo sem solução.

Envelo à caça de um ponto sem nó.

Meus membros, agora, são todos um, manco.

Imóveis, inúteis, atados.

Cama de gato ninhada.

Nubla meus passos,

Turva meus olhos,

Embaraça, engoda

as linhas do meu pensamento, as curvas,

as fitas das minhas memórias.

Rolo, não ando, feixe vivo de farrapos.

O novelo me envolve, volve-me.

Seus fios fortes fundem-se em mim.

Cego nó. Cegos nós. Sem vê-lo.

Odracir Aruom 220909

17-07-09_1222

Se tem uma coisa que eu gosto é tirar fotos de detalhes do dia-a-dia. Coisas pequenas, grandes, banais e inusitadas. Não importa. O mais importante é o momento, seu caráter único. Seguem, abaixo, algumas delas, tiradas de um ceular com câmera 2.0 MB.

MAPPS/UECE, visto de baixo pra cima:

01-09-09_1405

Teto de elevador, Aeroporto Pinto Martins:

teto

Muro em São Luís (MA):

26-08-09_0903

Centro Artístico Operário, São Luís (MA):

26-08-09_0905

Noiva literalmenta carregando seu casamento nas costas:

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CE-060, Bairro Boaventura, 21 de agosto:

21-08-09_1611

Av. Dedé Brasil, Paranjana, 15 de setembro:

15-09-09_1459

Um cinema às três da tarde é o lugar mais seguro para um encontro escondido, para os amores secretos – por qualquer motivo – e para fugir a uma obrigação inadiável.

GM em entrevista a Geneton Moraes Neto.

Adoro descobrir palavras novas. Na semana passada, conheci várias. Safeeling e globesidade foram as mais interessantes. Enquanto a primeira indica uma busca bastante atual por produtos e serviços que transmitam uma sensação de segurança, a segunda retrata o nível a que chegou a epidemia de obesidade no mundo.  Como se vê, são dois novos nomes que tentam explicar a dinâmica ultraveloz do mundo em que vivemos. Como todo bom feiticeiro sabe, a capacidade de denominar as coisas e pessoas é o primeiro passo para que se tenha poder sobre elas.

Vi no Twitter a indicação de vários livros sobre comunicação para download gratuito e resolvi conferir mais de perto. O que mais me chamou atenção foi um cujo nome é Realidade Origami. Não precisa nem dizer que esse conceito me pareceu muitíssimo interessante. Ao ler a obra, no entanto, vi que o estudo não se aprofundava nessa questão, mas tão somente em refazer o percurso do conceito de Verdade na filosofia ocidental. Creio que a noção de uma realidade origami mereça um trabalho de reflexão mais amplo, que possa ir além desse nosso viés racionalista. Adotar uma perspectiva de maior integração com tudo o que nos rodeia talvez seja um caminho mais fecundo, assim como ocorre com os haicais emr elação à natureza. Decidido a encarar o desafio, fui saber mais sobre origamis. Em japonês, essa palavra significa Dobrar (Ori) Papel (Kami). A expressão soa banal? Pois saiba que Kami é a mesma palavra usada para Deus. Ou seja, na língua japonesa um papel em branco está situado no mesmo campo semântico do Criador. A história começa a ficar interessante…

Para os nipônicos, o papel tem tanta importância que a palavra é a mesma que Deus: Kami. Mas, apesar da palavra ser igual, os ideogramas são diferentes. Isto porque, na época da invenção do papel, há cerca de 2.000 anos, o papel era uma preciosidade. “As primeiras dobraduras eram simbólicas e eram oferecidas aos deuses”. Segundo historiadores, na era Kodai, que antecede a era medieval japonesa, o Estado e a religião eram unos e o origami era empregado em ocasiões como coroações e casamentos.

A etapa mais importante na elaboração de um origami talvez seja a primeira dobra.

“No origami a primeira dobradura deve ser muito bem feita, para que o papel possa ficar em pé. Assim também é na vida. As crianças devem receber uma boa educação pois se não têm uma boa estrutura não conseguem parar em pé”, ensina Kazuko Horiuchi, professora de origami.

Feita a dobra inicial, tem-se então um universo de possibilidades literalmente à mão de quem dobra o papel. Essa experiência de criação traz em si algo de desafiador. “E se eu dobrar desse jeito e não daquele?” Ainda que a dobra possa ser desfeita, sua marca permanecerá. Ou seja, cada ato tem sua repercussão e leva a um caminho diferente. Perpassa a filosofia do origami uma ética da responsabilidade. O que não implica, necessariamente, em algo pesado ou árduo. Isso é especialmente verdade quando do resultado final do trabalho. Por mais bonito, por mais interessante que seu origami seja, ele é feito de papel, um material bastante delicado, frágil e cuja vida útil pode ser bastante curta. Essa característica efêmera do origami, no entanto, não é nenhum impedimento para sua realização. Pelo contrário, ela nos permite ir sempre além, em busca de novas formas:

Para quem, como eu, passa a maior parte de seu tempo pensando – lendo e escrevendo – o origami é uma forma divertida e prazerosa de meditar. Minha mente se esvazia do árduo trabalho de compreensão do texto, de ordenação das idéias, de articulação de pensamentos, de reflexão, enfim. No vazio das palavras, minha mente descansa. Isto é tão verdadeiro que quando, por este ou aquele motivo, permaneço presa às palavras, o trabalho com o origami não dá frutos, não consigo ver o que eu devo ver, como se, naquele momento, eu não pudesse meditar…

O que me leva ao segundo ponto em que meditar e origami se encontram. Meditar, dizem, é focar, centrar a atenção em algo, basicamente o próprio ato de respirar. A mesma coisa exige o origami: centrar, direcionar nossa atenção para o diagrama. Tanto isso é verdade, que , um dia desses, me aconteceu uma experiência muito interessante. Eu estava fazendo um origami, concentrada na forma proposta em cada passo do diagrama, quando, em determinado momento, empaquei. Não conseguia ver o que devia ver.

Atabalhoadamente, usei o mecanismo de “tentativa e erro”, sem resultado. Foi quando disse a mim mesma: aquieta-te e vê. Durante alguns minutos, fixei minha atenção no diagrama, sem tentar “compreender” , sem fazer nenhum gesto, nada, apenas concentrada em “ver” o que me aparecia. De repente, meus dedos executaram o passo preciso e a forma surgiu. Simplesmente eu tinha conseguido “focar” minha atenção!

Por isso é que eu intuo que fazer origami é uma forma de meditar. Com um acréscimo, que me parece fundamental: uma dose extra de alegria, aquela alegria fresca que um dia sentimos, quando éramos crianças e simplesmente descobríamos o mundo. Porque fazer origami é nos surpreender – apesar de todo o esforço que ele nos exige, algumas vezes, pela complexidade dos modelos propostos pelos mestres –  ao fazer surgir algo inteiramente novo, a partir da forma pura de um quadrado!

Particularmente, sou fascinada pelo origami modular. O ato repetido de construir 6, 12, 24, 30, 60, 120, 270 módulos , todos iguais, e o ato posterior de ir construindo uma forma, paulatinamente, até que de repente eis que surge em nossas mãos, o quê?: um sólido ponteagudo, formado de triângulos, pentágonos, hexágonos, cheios ou vazados, de formas tão variadas e tão belas… Torno-me então aquela criança que se admirava com a novidade do aparecer das coisas, uma sensação que nós, adultos, por já termos vivido tanto, temos dificuldade de sentir – sim, há algo de novo no que se repete!

Olhando o objeto entre minhas mãos, reflito – não posso fugir das palavras – de como há no origami um jogo entre formas: entre a forma primária – cada módulo – e a que se constrói na sua articulação, de tal maneira que o que aparece não é o resultado da mera junção das formas elementares mas algo novo, qualitativamente novo…E eu digo a mim mesma, feliz: Meu Deus, isso é pura dialética! E sorrio… para recomeçar outra vez e outra e mais outra…

É provável que sejam diversas as motivações de cada praticante de origami. A minha, descobri agora, é meditar… (Eridan Passos)

Falar de uma realidade origami certamente passa por essa reflexão, por uma percepção da vida como algo complexo, mas capaz de ser dobrada e recriada incessantemente com as nossas próprias mãos. 

Fonte:

Os parágrafos em itálico foram retirados dos sites <http://seinensa.vilabol.uol.com.br/cultura/origami/origami.htm> e <http://www.ferrazorigami.com.br/?q=node/8>.

Cada aniversário traz em si um momento de autoreflexão. Pelo menos é isso o que acontece comigo. Resolvi meu dilema pessoal da idade avançada na  chegada os 30.

Aos 31, minha preocupação atual é a solidão. Percebi que estamos irremediavelmente sozinhos no mundo. Estar só não é estar em um deserto, sem alguma alma viva. É responder solitariamente aos desafios que a vida nos impõe.  É não poder compartilhar integralmente a nossa angústia pessoal, que é só nossa. 

Será que estou falando sozinho?

(Atualização)

P.S. Dá um certo alívio saber que outras pessoas também se sentem assim. Que tal formamos a Banda dos Corações Solitários do Sargento Pimenta?